Fernando Machado

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Um nome que a história guardou

Muitas imagens eu poderia dele guardar, nesses anos em que juntos convivemos. O seu otimismo, o amigo de todas as horas, a elegância no tratamento com as pessoas, a sensibilidade poética a flor da pele e a facilidade em converter sentimentos em notas musicais, o tornavam um personagem a procura de um autor. Era ele o poeta das várias cidades: soube cantar as saudades do Recife e Olinda, que o viram nascer; exaltar a alegria contagiante do Rio de Janeiro, onde conviveu por mais de trinta anos; sem esquecer os tempos bons de sua meninice, quando passava as férias em Maceió.

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Luiz Bandeira e Iracema no footing pela Rua Nova em outubro de 1947 (Fotos: Arquivo)

O vácuo de sua ausência parece uma constante a acompanhar-me os passos. Uma fase doída de vida, só comparável com o semblante de tristeza e de desolação do seu filho Fernando, na missa de trigésimo dia, quando numa só frase expressou a angústia que lhe atordoa o peito: “… eu estou com muita saudade do meu pai!”. Luiz Bandeira foi embora, num domingo de Carnaval, naquele 28 de fevereiro de 1998. Passaram-se os anos, vieram novos carnavais, mas, em todos os recantos, todos estão a cantar o seu conhecido frevo-canção, Voltei Recife, um grito de saudade que ele mandou do Rio de Janeiro em 1959.

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Iracema e Luiz Bandeira no dia do casamento 10 de junho de 1947

Nascido na atual Avenida Santos Dumont, no Rosarinho, em 25 de dezembro de 1923, Luiz Bandeira foi iniciado na carreira musical por sua mãe, Elizabeth Mendes Bandeira. A Dona Lili, como recordava ele: “um misto de doceira e professora de piano”. Em suas conversas recordava com saudade de Marieta, uma espécie de mãe adotiva, responsável pela sua ligação com às Alagoas. Lá, durante as férias, iniciou-se na música nordestina, assistindo, nas feiras e praças de Maceió, as apresentações das bandas de pífanos, emboladores, cocos e pastoris.

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Leonardo Dantas e Luiz Bandeira

Em 1939, no programa Valores Desconhecidos, dirigido por Abílio de Castro, no Rádio Clube de Pernambuco, ingressou para a vida artística. Anos depois já fazia sucesso com o conjunto vocal Garotos da Lua, ao lado de Inaldo Vilarim, Ernani Reis, José Rabelo, Madeirinha e Djalma Torres. Em 1942 ingressava como cantor na Orquestra de Nelson Ferreira e, depois de uma curta temporada no Rádio Jornal do Commercio (1948-50), transferiu-se para o Rio de Janeiro onde permaneceu até 1984.

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Luiz Bandeira em tempo de galã

No Rio integrou a Orquestra do Copacabana Palace, participou das revistas do Valter Pinto, e logo foi contratado para Rádio Nacional. Em 1951, fez sucesso nacional com o baião Torei o pau, gravado por Manezinho Araújo, seguido de Baião sacudido (1954), em parceira com Humberto Teixeira, e do samba O que os olhos não vêem, gravado no ano seguinte pela Continental.

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Capa do seu disco com dedicatória para esse cronista

Em 1955 compôs Na cadência do samba, conhecido pela letra do seu primeiro verso, “que bonito é!…”, e divulgado no cinema nas transmissões esportivas do Canal 100. Em 1958 foi a vez de O apito no samba, que veio receber letra de Luís Antônio e tornou-se uma espécie de vinheta musical da Cidade Maravilhosa.

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Luiz Bandeira fazendo sucesso como cantor no Rio de Janeiro

Em 1984, Luiz Bandeira voltou de vez para o seu Recife. Integrando-se à vida artística local, procurou resgatar sua obra com a publicação dos discos, Voltei Recife, em 1985, e Como sempre fui – 50 anos de vida artística, em 1991. Se não mais o temos em nosso convívio, ficaram essas notas de saudade para acalentar o nosso pranto de saudade. (Texto do Jornalista e pesquisador Leonardo Dantas)

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