Fernando Machado

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Categoria Um nome que a história guardou

Um nome que a história guardou

Inconformados os artistas constroem suas imagens particulares da realidade. Contam histórias, cidades, homens, guerras, amores. Tarefa árdua de guerreiros, apaixonados. Palavra, tinta, carvão, sangue, luz, não importa o meio. Gabriel, Cervantes, Picasso, Homero, Joyce, Calvino, Lewis Carol, Fellini, imaginosos, deixaram Macondo, Quixotes, Guernicas, Alices.

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O escritor Maximiano Campos (Fotos: Arquivo do IMC)

Maximiano Campos escolheu a palavra. Contou a dor do engenho de fogo morto, o retrato do seu avô na sala abandonada, a prima, o rio, a solidão. Contou o azul, o amarelo, o verde da cana. Contou as histórias sem fim da mata de Pernambuco, berço de vidas, experiências e sonhos particulares. Seu lugar de façanhas. Contar é façanha de guerreiro, de artista apaixonado. Sua obra conta o que sonhou e viveu. Foi um domador de sonhos.

Fugindo da realidade cruel que o incomodava, Maximiano criou um mundo de sonhos, de onde tirava suas poesias, seus romances. Nos sonhos concretizados em suas obras ele domava a tirania, a fome, o desamor, a injustiça, a solidão. E amava, e vingava os injustiçados pelas mãos de um Antônio Braúna ou, num acesso de tristeza e solidão à procura de quem o escutasse, clamava como no conto “O Leitor”:

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Maximiano Campos e sua inseparável máquina de escrever

“Sou um domador de sonhos. Sou o guardião de uma loucura mansa, um profeta sem seguidores. Sou um revoltado contra as ditaduras que cultivam a tortura e que afogam todas as liberdades do mundo. Sou livre porque não temo arriscar a vida. Sou um palhaço que zomba das próprias desventuras. Sou herói de todas as guerras, e há muito que me sinto incapacitado para a paz que não conquistei. Sou um contemporâneo, um contemporâneo de todos vocês, um contemporâneo de um tempo difícil que serve de pasto para servidões, que só serão vencidas com o poder do sonho, lutando gritando alto que a liberdade que temos em nós é maior do que qualquer aparato de força dos tiranos. Sou um rebelado”.

O sonho é uma presença constante na obra de Maximiano que, entre a dimensão concreta e a onírica buscou o sentido da vida, buscou a sua verdade. Dava vida aos sonhos. Havia nele um estado fronteiriço entre a crueza da injustiça social e os seus sonhos quixotescos de domador/libertador que o levaram a produzir a riqueza literária que nos deixou como herança. Escritor autêntico, livre, destacou-se pela coragem com que defendia a liberdade, e sua obra, embora essencialmente nordestina, tem dimensões universais. Foi Sem Lei Nem Rei.

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Maximiano recolhido na sua biblioteca

Ao completar sete anos, neste mês de junho, o Instituto Maximiano Campos inaugura uma nova etapa em sua existência com diversas atividades sendo realizadas, dentre elas, a inauguração de um Memorial sobre o escritor e o lançamento do Prêmio Maximiano Campos Ano V. Inaugura também o Projeto de Leitura Contar + destinado ao estímulo a leitura de crianças e reafirma o seu compromisso com a cultura, a cidadania e o futuro desse país. (Antônio Campos – Presidente do Instituto Maximiano Campos)

Um nome que a história guardou

José do Lins do Rego Cavalcanti nasceu no dia 3 de junho de 1901, no Engenho Corredor, em Pilar, a 56 km de João Pessoa (PB). Filho de João do Rego Cavalcanti e Amélia Rego Cavalcanti com a morte destes, José Lins passa a viver com o avô materno – José Lins Cavalcanti de Albuquerque – no engenho Corredor, sob os cuidados da sua tia Maria. A recordação da infância motivou a escrever o best seller “Menino de Engenho” e os livros seguintes Doidinho, Usina e Bangüê. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1955, José Lins do Rego é Um Nome que a história Guardou e que a Paraíba reverencia hoje como um de seus mais ilustres conterrâneos.

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José Lins do Rego (Fotos: Fundação Joaquim Nabuco)

Em 1909, José do Lins estudou no Internato Nossa Senhora do Carmo em Itabaiana (PB). Três anos se transfere para João Pessoa onde estuda no Colégio Diocesano Pio X. Em 1915 muda-se para o Recife, onde cursa o Instituto Carneiro Leão e o Ginásio Pernambucano. Em 1919 matricula-se na Faculdade de Direito do Recife onde se torna amigo dos escritores José Américo de Almeida e Gilberto Freyre.

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Nos anos 20 no Recife, José Lins com os colegas escritores Olivio Montenegro e Gilberto Freyre

José do Lins casou-se em 1924, com Filomena Massa (Naná), filha de senador, com quem teve três filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória e Maria Cristina. Nomeado promotor público em 1925 exerceu o cargo em Manhuaçu (MG). Um ano depois desiste de fazer carreira na magistratura e transfere-se para Maceió, onde passa a trabalhar como fiscal de bancos, “de bengala, monóculo e costeletas”. Em 1935, transfere-se definitivamente para o Rio de Janeiro, onde colabora em alguns jornais e exerce cargos diplomáticos. Elege-se para a cadeira 25 da Academia Brasileira de Letras em 1955.

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José Lins na sua posse na Academia Brasileira de Letras em 1955 com Austragésilo de Atayde

Quem visita a capital paraibana não deve deixar de ir ao Espaço Cultural José do Lins Rego, inaugurado em 19 de março de 1985. No local encontra-se o museu José do Lins Rego com a completa biblioteca (gabinete particular) doada pelo escritor e que inclui o seu acervo bibliográfico com mais de 4 mil volumes, enriquecido com telas, fotografias, cartas, comendas, manuscritos das obras do escritor, objetos pessoais, busto em bronze do escritor, da autoria de Bruno Giorgi, máquina de escrever, máquina de costura do Engenho Corredor. Destaque para a bandeira do Flamengo, que pertenceu ao escritor que era torcedor fanático.

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José Lins e o conterraneo paraibano escritor e ministro José Américo de Almeida

José do Lins do Rego faleceu no Rio de Janeiro, em 12 de setembro de 1957, aos 56 anos de idade, no Hospital dos Servidores do Estado, vitima de hepatopatia. Quando da sua morte, Gilberto Freyre escreveria que fora José Lins “O mais constante, o compreensivo, o mais leal dos meus companheiros de geração. José Lins deixou uma produção literária muito densa, com 12 romances, um livro de memórias, livros de crônicas, e literatura infantil. O Romance mais lido é o “Menino de Engenho”, e sua obra prima é “Fogo Morto. (Rogério Almeida)

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José Lins e a esposa Filomena Marsa e as filhas Maria da Gloria e Maria Cristina

Um nome que a história guardou

Apesar de ter vivido 32 anos no Rio de Janeiro, o poeta e dramaturgo recifense Joaquim Cardozo não é um filho ingrato de sua terra: o Nordeste, e em particular Recife, que o viu nascer e sempre presente em sua obra, funcionando muitas vezes como a própria matéria de sua poesia. Entretanto, a terra nordestina não se manifesta apenas como memória ou saudosismo, como acontece com frequência entre tantos poetas. Surge como natureza complexa e viva, como paisagem original, e do mesmo modo como contradição e miséria social. O Nordeste, no caso de Cardozo, é uma verdadeira dimensão do espírito do poeta, um local real onde ocorre o mundo.

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O poeta Joaquim Cardoso (Foto: Divulgação)

Atuando profissionalmente como engenheiro, inclusive como assistente de Oscar Niemeyer, tendo sido Brasília quantificada em sua prancheta de engenheiro calculista, a arquitetura também tem papel fundamental no tratamento poético de Joaquim Cardozo. O verso calculado, preciso, trabalhado sem afetação, constitui sempre um conjunto harmonioso, de marcada preocupação arquitetônica, ainda que simples e objetivo. Por outro lado, procura dar significação poética à arquitetura, deixando trabalhos teóricos importantes nessa área.

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Joaquim Cardoso por Di Cavalcanti

São de sua autoria: Poemas (1947) – Prelúdio e Elegia de uma Despedida (1952) – O Signo Estrelado, (1960) – O Coronel de Macambira (1963) – De uma Noite de Festa (1971) – Poesias Completas (1971) – O Capataz de Selema / Antônio Conselheiro / Boi de Carro (1975), Um Livro Aceso e Nove Questões Sombrias (1981), Poemas Selecionados (1996), uma antologia organizada por César Leal. (Jornalista Ariadne Quintella)

Um nome que a história guardou

Ele foi comandante da Policia Militar de Pernambuco por um ano em 1931, por 12 dias em 1932, por cinco meses em 1934 e quase quatro meses em 1935. Este pouco tempo deixou grandes marcas de sua visão futurística. Estamos nos referindo ao general Jurandir Bizarria Mamede que nasceu na Bahia no dia 27 de setembro de 1906 e morreu no Rio de Janeiro no dia 12 de dezembro de 1998.

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O general Jurandir Bizarria Mamede (Foto: Reprodução)

Está no livro “Policia Militar de Pernambuco – Origem e evolução histórica”, do coronel Carlos Bezerra Cavalcanti: “No comando do brilhante coronel Bizarria Mamede procurou-se, antes de tudo, elevar o espírito de disciplina de tropa por meio de medidas capazes de restabelecer a harmonia entre os comandados a par de muitos outros tendentes e dar-lhes conforto e prestar-lhes uma constante e proveitosa assistência. Nesse sentido foram criados cassinos para os Sargentos. Organizou-se o Serviço de Transporte, como a construção de uma garagem e a aquisição de automóveis para o transporte de tropa, melhorando-se assim, extraordinariamente a situação das Praças, anteriormente obrigados a vencer grandes distâncias para chegar aos locais de serviço. Melhorou-se também o calçado e o uniforme, assim como as condições do Rancho.”

Na época coronel do Exército Bizarria Mamede mostrou como era avançado criou uma biblioteca e no dia 7 de setembro de 1935, juntamente com o tenente coronel Afonso de Albuquerque Lima, inaugurou o Cine Teatro de a Brigada Militar, como era chamada na ocasião, localizado ao lado do Quartel do Derby para que as praças pudessem relaxar das atividades do dia a dia. Um detalhe: O artista plástico Di Cavalcanti pintou dois afrescos aos lados do palco do teatro. Jurandir Bizarria Mamede encerrou suas atividades de militar como ministro do Superior Tribunal Militar em 1976.