Fernando Machado

Blog

Tag racista

A inesquecível Ana Maria Guimarães 

Embora situado numa região de grande concentração de negros remanescentes da época da escravidão, Pernambuco só elegeu sua primeira miss negra 100 anos depois de promulgada a Lei Áurea. Em 1988 o concurso Miss Pernambuco de 1988 bateu o recorde nacional de jovens afro-descendentes que participaram numa mesma competição. Das 34 candidatas, 4 eram negras: Ana Maria Guimarães (Clube Rodoviário), Itamira Andrade (Grupo Teatral Além do Túnel), Waldênia de Souza Melo (Clube Pierrot de São José), e Solange Monteiro Melo (Sirinhaém).

A foto oficial das candidatas ao Miss Pernambuco de 1988 (Foto: Roberto Paixão)

Nem a Bahia ou até mesmo o antigo Estado da Guanabara, cujas populações são predominantemente de negros tinha atingido essa marca. Mas para chegar até o título, Ana Maria Guimarães teve de enfrentar muitos obstáculos, como encontrar um clube que apoiasse seu nome, derrubar o preconceito das agremiações que não a aceitaram pela cor de sua pele. O Clube Rodoviário de Pernambuco, cujos sócios eram funcionários do DER-PE, topou a parada e abraçou o seu nome.

Ana Maria Guimarães, Andrea Minelli, Aninha, Valeria Nielsen,  Denir Santos e Aninha (Fotos: Geraldo Guimarães)

Do alto dos seus 1m80 de altura, corpo longilíneo,  passarela impecável a deusa de ébano ganhou a simpatia unânime das candidatas, os aplausos da platéia que lotou o salão principal do Clube Internacional do Recife e os votos da comissão julgadora formada por pessoas de prestígio, alguns da aristocracia pernambucana. Todavia, ao ter seu nome anunciado como a nova Miss Pernambuco, ela sentiu na pele o que seus antepassados sofreram no pelourinho e nas senzalas. Da platéia surgiu em sua direção um copo com resto de bebida e pontas de cigarro.

Aninha desfilando pela última como Miss PE e Aninha desfilando para ser Miss PE-88 (Fotos: Geraldo Guimarães)

Com muita altivez e classe, ela continuou  seu desfile majestosamente com coroa, faixa, manto e cetro e foi ovacionada pelo público deixando constrangido o autor do ato racista. Aninha tinha experiência como manequim, pois fazia parte do casting dos desfiles da Ele e Ela Modas, e soube tirar de letra aquele momento de fobia à sua raça. Do Recife seguiu para disputar o Miss Brasil de 1988 em São Paulo onde chegou como uma das favoritas.

No quinteto Aninha já se destacava (Foto: Geraldo Guimarães)

Ana dividiu os flashes, os holofotes e a mídia com a Miss Bahia, Vanessa Blumenfeld Magalhães, uma loura de arrasar quarteirões, lindíssima e apontada como a nova Martha Rocha. No entanto o concurso de 1988 foi de muitos equívocos e desacertos motivados pela ausência de Sílvio Santos no comando, devido a uma doença nas cordas vocais. Sem ele, a competição trocou o Palácio das Convenções do Anhembi pelo acanhado auditório da TVS, na Vila Guilherme. A miss eleita não era a preferida.

Ana Maria Guimarães no Bal Masqué e no Baile Municipal de 1989 (Fotos: Divulgação)

Primeiro anunciaram as 12 semifinalistas com a pernambucana incluída. Depois chamaram apenas três sem ela. Na época circularam nos bastidores boatos de que a mãe da Miss Bahia ficou indignada com o segundo lugar de sua filha e que desabafou que naquele concurso só tinham duas candidatas para ganhar, as misses Bahia ou de Pernambuco. Outro bafon que até hoje circula no mundo dos missólogos é que uma das juradas teria dado uma nota baixa a pernambucana evitando assim que outra negra fosse eleita Miss Brasil.

A senhora Ana Regina Rique e a Miss Pernambuco de 1988, Ana Maria Guimarães (Foto: Geraldo Guimarães)

Daí da deusa de ébano de Pernambuco ficou fora do Top 3. Em tempo: o júri foi composto por José Victor Oliva, Jassa, Deise Nunes, César Filho, Chico Recarey e Joyce Kermann. Outra controvérsia: as notas não foram dadas ao vivo como ocorria nas edições anteriores. Após o Miss Brasil Ana Maria Guimarães fez vários editoriais de moda para revistas nacionais e internacionais e desfilou no circuito São Paulo-Nova Iorque-Paris-Milão-Tóquio. Ela concluiu o curso de Psicologia, casou com o mesmo namorado da adolescência, atualmente reside em Natal, no Rio Grande Norte e continua sendo a única negra Miss Pernambuco. (Texto: Muciolo Ferreira)

Acontecencias

Já que as mulheres são o assunto da vez, o restaurante Wiella Bistrô decidiu homenageá-las. No próximo dia 11 acontecerá o Jantar Delas. As chefs Luciana Sultanum, Claudia Freyre, Sofia Mota e Lícia Maranhão assinam menu com temática livre. Os testes já começaram.

claudia-freire-licia-maranhão

As chefs Claudia Freire e Licia Maranhão (Fotos: Divulgação)

A Miss Brasil de 1970, Eliane Thompson, sentiu cunho racista de Tais Araújo e ficou chocda. A atriz durante o programa da Fátima Bernardes afirmou que “tem horror às princesas loirinhas de cabelos lisos e olhos azuis que se apresentam nas historinhas infantis”. Eliane se sentiu vítima de preconceito racial e pensa em processá-la.

Anotações do Cotidiano

santa-cruz
O escudo do Santa Cruz by Lacraia (Foto: Reprodução)

Para quem não sabe o Santa Cruz foi o primeiro time brasileiro a admitir um negro na sua equipe. E isso aconteceu desde sua fundação no dia 3 de fevereiro de 1914 e o fera era o atacante Teófilo Batista de Souza, o famoso Lacraia, um dos fundadores. “O cara” foi quem criou o escudo tricolor. Outra legenda do Santa Cruz, agora nos anos 30 foi o mulato Sebastião da Virada. Como se ver o Santa Cruz nunca foi racista.

sebastiao-da-virada
Sebastião da Virada um ídolo dos tricolores (Foto: Divulgação)

Em mais um evento em comemoração aos seus 30 anos, a Centauro, maior rede de lojas de material esportivo da América Latina, e a Penalty, empresa de artigos esportivos e patrocinadora do Náutico, realizam hoje, às 19h30, no Plaza Shopping Casa Forte, uma noite de autógrafos com os jogadores do time alvirrubro: Derley, Everton e Glédson.